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Traição no Casamento: Será que a Infidelidade é Mesmo a Maior de Todas as Traições?

  • Foto do escritor: niviaserrapsi
    niviaserrapsi
  • há 9 minutos
  • 16 min de leitura

Traição no casamento pode começar muito antes de existir uma terceira pessoa: indiferença, desprezo, rejeição, solidão e falta de intimidade também podem romper silenciosamente o vínculo entre duas pessoas

traição no casamento

Quando pensamos em traição no casamento, quase imediatamente imaginamos uma terceira pessoa.

Uma mensagem escondida.

Um encontro secreto.

Uma relação sexual fora do casamento.

A descoberta.

A quebra da confiança.

E, finalmente, a pergunta que costuma aparecer depois: “Como você foi capaz de fazer isso comigo?”

Não há dúvida de que uma infidelidade pode provocar uma ruptura profunda na confiança de um casal. Para muitas pessoas, descobrir uma traição representa uma das experiências mais dolorosas de toda a relação.

Mas existe uma pergunta desconfortável — e extremamente importante — que merece ser feita:

Será que toda traição começa quando alguém se envolve com outra pessoa?

Ou será que alguns casamentos começam a ser traídos muito antes disso?

Essa é uma das reflexões mais provocadoras que aparecem no capítulo “A mãe de todas as traições?”, do livro Casos e Acasos, de Esther Perel.

Ao longo do capítulo, somos convidados a olhar para a infidelidade não de maneira simplista, dividindo o casamento apenas entre culpado e vítima, mas observando a história completa daquela relação.

Isso não significa justificar uma traição.

Muito menos responsabilizar a pessoa traída pela decisão do parceiro de se envolver com outra pessoa.

Quem trai continua responsável pelas próprias escolhas.

Mas compreender um casamento exige uma pergunta diferente de simplesmente:

“Quem traiu?”

Às vezes precisamos perguntar:

O que estava acontecendo entre essas duas pessoas antes de aparecer uma terceira?

Porque, em alguns relacionamentos, a infidelidade não inaugura a crise.

Ela apenas torna impossível continuar ignorando uma crise que já existia.


Traição no casamento é somente infidelidade sexual?

Culturalmente, damos à infidelidade um lugar muito particular entre as transgressões conjugais.

Uma pessoa pode passar anos sendo indiferente ao parceiro.

Pode desprezá-lo.

Humilhá-lo.

Ignorar suas necessidades.

Pode deixar toda a responsabilidade da família nas costas do outro.

Pode se recusar durante anos a conversar sobre um problema importante para o relacionamento.

Pode tratar o parceiro como alguém irrelevante.

Pode manter uma relação aparentemente estável por fora enquanto, dentro de casa, existe uma profunda solidão.

Ainda assim, quando uma terceira pessoa aparece, muitas vezes toda a história do casamento passa a ser resumida a um único acontecimento:

“Fulano traiu.”

É exatamente essa simplificação que merece ser questionada.

A infidelidade pode ser uma grave quebra do acordo estabelecido entre duas pessoas. Entretanto, isso não significa que seja a única maneira de romper um compromisso conjugal.

Existem casamentos nos quais nunca houve uma relação extraconjugal e, mesmo assim, um dos parceiros se sente abandonado há anos.

Há pessoas casadas que são profundamente solitárias.

Dormem na mesma casa.

Dividem contas.

Criam filhos.

Organizam compromissos.

Fazem compras.

Viajam.

Comparecem às reuniões familiares.

Mas deixaram de se sentir importantes uma para a outra.

E talvez uma das perguntas mais difíceis seja justamente esta:

É possível permanecer sexualmente fiel e, ainda assim, abandonar emocionalmente o casamento?


A pessoa que foi traída nem sempre foi a única pessoa ferida no casamento

Essa é provavelmente uma das ideias mais importantes para compreendermos o capítulo.

Quando uma infidelidade é descoberta, existe uma tendência natural de reorganizar toda a narrativa do relacionamento ao redor daquele acontecimento.

Passa a existir “quem traiu” e “quem foi traído”.

Em muitos casos, essa distinção é necessária.

Existe uma escolha concreta.

Existe uma quebra de acordo.

Existe sofrimento.

Porém, do ponto de vista relacional, a história pode ser mais complexa.

Imagine um casamento em que uma pessoa passou anos sendo ridicularizada, diminuída ou tratada como incapaz.

Ou um relacionamento no qual todas as tentativas de aproximação foram recebidas com desprezo.

Ou ainda um casamento no qual um dos parceiros construiu uma vida praticamente independente, deixando ao outro apenas a função de administrar casa, filhos e obrigações.

Se, posteriormente, essa pessoa se envolve com alguém fora do casamento, a infidelidade não apaga tudo aquilo que aconteceu anteriormente.

Duas coisas podem ser verdadeiras ao mesmo tempo:

A traição pode ter sido uma escolha que provocou sofrimento.

E:

O casamento já poderia estar profundamente adoecido antes dela.

Essa distinção é essencial porque compreender não é o mesmo que justificar.

Na terapia de casal, procurar entender a dinâmica que antecedeu uma infidelidade não significa dizer que alguém “merecia ser traído”.

Significa sair de uma leitura exclusivamente moral e começar a investigar o funcionamento daquela relação.


“Quem traiu quem primeiro?”

Essa é uma pergunta provocadora.

E não deve ser usada para transformar o casamento em um tribunal.

O objetivo não é construir uma contabilidade de sofrimento:

“Você fez isso, então eu fiz aquilo.”

“Você me rejeitou, então eu podia trair.”

“Você não me dava atenção, portanto a culpa foi sua.”

Esse raciocínio não ajuda um casal a compreender o que aconteceu.

Mas existe outra maneira de formular a pergunta:


Quais compromissos importantes desse relacionamento já estavam sendo quebrados antes da infidelidade?

Talvez o compromisso de respeito.

Talvez o compromisso de parceria.

Talvez o compromisso de intimidade.

Talvez o compromisso de ouvir.

Talvez o compromisso de considerar as necessidades do outro.

Talvez o compromisso de não humilhar.

Talvez o compromisso de cuidar da relação.

A traição sexual é uma forma de ruptura.

Mas não necessariamente é a primeira.


Quando o casamento vira apenas administração da vida

Existe um tipo de relacionamento que vejo como especialmente perigoso para a conexão conjugal: aquele em que o casal funciona muito bem como equipe administrativa, mas praticamente desaparece como casal.

As conversas passam a ser sobre:

filhos;

escola;

contas;

compras;

horários;

trabalho;

casa;

compromissos;

problemas;

tarefas.

Tudo funciona.

Ou quase tudo.

Mas onde estão as duas pessoas que um dia escolheram estar juntas?

O casamento pode lentamente se transformar em uma espécie de sociedade de administração familiar.

Os parceiros continuam lado a lado, mas o vínculo afetivo e erótico vai sendo empurrado para algum lugar distante.

E isso pode acontecer durante anos.

É possível inclusive que ninguém perceba claramente quando começou.

Até que um dos dois encontra alguém que pergunta:

“Como você está?”

E realmente espera pela resposta.

Alguém ri de uma piada.

Demonstra interesse.

Escuta.

Admira.

Percebe.

E uma pessoa que se sentia invisível há anos volta a experimentar uma sensação esquecida:

“Eu ainda sou interessante para alguém.”

Isso não transforma uma relação extraconjugal em solução.

Mas ajuda a compreender por que algumas pessoas ficam tão vulneráveis à atenção recebida fora do casamento.


Às vezes não é sexo que a pessoa está procurando

Essa é outra reflexão muito importante do capítulo.

Quando descobrimos uma infidelidade, tendemos a reduzir o caso à sexualidade.

“Ele queria sexo.”

“Ela procurou outro homem.”

“Ele queria outra mulher.”

Nem sempre é tão simples.

Por trás de alguns envolvimentos extraconjugais existe uma procura por algo que desapareceu dentro da relação:

atenção;

gentileza;

admiração;

curiosidade;

validação;

carinho;

intensidade;

sensação de ser desejado;

sensação de ser visto;

sensação de ainda ser relevante.

É claro que pode existir desejo sexual.

Mas sexualidade e intimidade humana não são exatamente a mesma coisa.

Às vezes a pessoa procura fora do casamento alguém diante de quem consiga se sentir novamente viva.

Esse ponto é particularmente importante porque mostra que prevenir uma crise conjugal não significa simplesmente “fazer mais sexo”.

Significa cuidar do vínculo.


A solidão a dois pode ser pior do que estar sozinho

Existe uma diferença enorme entre estar sozinho e sentir-se sozinho ao lado de alguém.

Quando estamos sozinhos, sabemos que estamos sozinhos.

Mas quando dividimos a vida com alguém de quem esperamos proximidade e essa proximidade não existe, surge outro tipo de sofrimento.

Você fala e não é ouvido.

Você pede e nada muda.

Você tenta se aproximar e encontra indiferença.

Você demonstra sofrimento e recebe irritação.

Você tenta conversar e encontra silêncio.

Depois tenta novamente.

E novamente.

Até que para.

Por fora, pode parecer que finalmente “está tudo bem”.

As discussões diminuíram.

As cobranças diminuíram.

Ninguém reclama mais.

Mas talvez aquilo não seja paz.

Talvez seja desistência.

Muitos casais interpretam o fim das discussões como melhora do relacionamento quando, na realidade, um dos dois simplesmente deixou de acreditar que conversar poderia produzir alguma mudança.

E quando alguém passa muito tempo sentindo-se invisível dentro de uma relação, qualquer experiência genuína de atenção pode adquirir uma força enorme.


Quando falar não resolve mais

Vivemos em uma cultura que valoriza muito o diálogo.

E com razão.

Uma comunicação saudável é uma das bases de um relacionamento satisfatório.

Mas existe um equívoco importante:

acreditar que conversar, por si só, resolve qualquer problema conjugal.

Há pessoas que conversaram.

Muitas vezes.

Explicaram.

Pediram.

Choraram.

Reformularam o pedido.

Tentaram falar com calma.

Depois falaram com raiva.

Depois imploraram.

Depois desistiram.

O problema não é necessariamente a ausência de comunicação.

Às vezes existe comunicação sem escuta.

E isso é muito diferente.

Quando uma pessoa fala repetidamente sobre algo que lhe causa sofrimento e nada acontece, ela pode começar a experimentar uma sensação profunda de impotência.

O problema deixa de ser:

“Meu parceiro não entende.”

E passa a ser:

“Meu parceiro entende, mas isso não parece importante o suficiente para que alguma coisa mude.”

Essa percepção pode ser devastadora para o vínculo.


Quando a falta de sexo no casamento deixa de ser apenas uma diferença de libido

Aqui entramos em um dos pontos mais delicados do capítulo.

Casais apresentam diferenças de desejo sexual.

Isso é normal.

Dificilmente duas pessoas desejarão sexo com a mesma frequência, no mesmo momento e da mesma maneira durante décadas.

Existem fases.

Nascimento dos filhos.

Cansaço.

Estresse.

Doenças.

Luto.

Alterações hormonais.

Problemas emocionais.

Conflitos conjugais.

Mudanças no corpo.

Problemas profissionais.

Tudo isso pode interferir na sexualidade.

Portanto, não estamos falando de transformar frequência sexual em obrigação.

Ninguém deve fazer sexo sem querer.

Consentimento continua sendo indispensável dentro de qualquer relacionamento.

Mas existe uma diferença entre respeitar o direito de alguém não querer uma relação sexual naquele momento e uma pessoa decidir unilateralmente que a dimensão sexual praticamente deixará de existir no casamento durante anos, apesar do sofrimento do parceiro.

Nesse ponto, o problema deixa de ser simplesmente:

“Eu não quero sexo.”

Surge outra questão:

“O que faremos com o fato de que eu não quero e você quer?”

Essa deveria ser uma questão do casal.


Sexo por obrigação não resolve a falta de intimidade

Quando um casal chega a esse ponto, outra solução problemática pode aparecer: fazer sexo apenas para cumprir uma obrigação.

O parceiro percebe que o outro está frustrado e aceita a relação sexual sem desejo, envolvimento ou conexão.

O resultado dificilmente resolve o problema.

Porque quem deseja intimidade geralmente não quer apenas acesso ao corpo do parceiro.

Quer reciprocidade.

Quer sentir-se desejado.

Quer aproximação.

Quer participação.

Quer perceber que existe uma experiência compartilhada.

Sexo vivido como favor pode aprofundar a sensação de rejeição em vez de diminuí-la.

A pessoa pensa:

“Ela está aqui, mas não quer estar.”

Ou:

“Ele está fazendo isso apenas porque eu reclamei.”

A sexualidade deixa de ser encontro e passa a ser obrigação.

E obrigação raramente produz desejo.


Rejeição sexual repetida também deixa marcas

Este é um assunto que precisa ser tratado com muito cuidado.

Dizer que ninguém é obrigado a fazer sexo é absolutamente necessário.

Mas isso não significa que rejeições repetidas não tenham consequências emocionais.

Uma pessoa que durante meses ou anos tenta se aproximar e é sistematicamente recusada pode começar a interpretar essas experiências como:

“Não sou desejável.”

“Existe algo errado comigo.”

“Meu parceiro não me quer.”

“Não sou mais homem suficiente.”

“Não sou mais mulher suficiente.”

“Talvez ninguém vá me desejar.”

A rejeição deixa de ser percebida apenas como uma resposta a uma iniciativa sexual e começa a atingir a identidade da pessoa.

É por isso que problemas sexuais prolongados não deveriam ser simplesmente empurrados para debaixo do tapete.

O silêncio não costuma resolver.


Quando alguém decide sozinho que o sexo acabou

Uma das questões mais difíceis levantadas pelo capítulo pode ser resumida assim:

O que acontece quando uma pessoa está satisfeita com um casamento praticamente sem sexo, mas a outra está profundamente infeliz?

Não existe uma resposta universal.

Existem casais felizes com pouca ou nenhuma atividade sexual.

Se ambos estão satisfeitos, não existe necessariamente um problema a ser tratado.

O problema aparece quando há uma discrepância importante e persistente.

Uma pessoa está confortável.

A outra está sofrendo.

E nenhuma solução consegue ser construída.

Nesse caso, dizer simplesmente “sexo não é tudo” pode ser profundamente invalidante.

Realmente, sexo não é tudo.

Mas, para muitas pessoas, a intimidade sexual é uma parte importante da experiência conjugal.

É uma forma de proximidade.

De desejo.

De vulnerabilidade.

De reconhecimento.

De conexão.

Ignorar completamente essa necessidade não faz com que ela desapareça.


“Eu achava que não gostava de sexo. Descobri que não gostava do sexo que estava vivendo.”

Essa é uma descoberta importante para muitos casais.

Algumas pessoas passam anos acreditando que possuem pouco desejo.

Até que começam a investigar a própria sexualidade e percebem que o problema era mais complexo.

Talvez o sexo estivesse mecânico.

Previsível.

Pressionado.

Desconectado.

Marcado por ressentimentos.

Sem espaço para conversar sobre preferências.

Sem curiosidade.

Sem segurança emocional.

Sem prazer.

Ou talvez a pessoa tenha aprendido ao longo da vida a se desconectar da própria sexualidade.

É por isso que uma dificuldade sexual não deveria ser automaticamente interpretada como:

“Meu parceiro não gosta de sexo.”

Precisamos perguntar:

Como essa pessoa aprendeu a viver a sexualidade?

Como ela se sente durante a intimidade?

O que acontece entre o casal antes, durante e depois dos encontros?

Existem ressentimentos fora da cama entrando na cama?

Existe medo, vergonha, cobrança ou pressão?

Existe prazer?

O problema sexual pode estar conando uma história muito maior.


O ciclo perseguidor-distanciador na sexualidade

Existe uma dinâmica bastante comum.

Uma pessoa deseja mais proximidade.

Procura.

Insiste.

Pergunta.

Tenta iniciar.

A outra se sente pressionada.

Afasta-se.

Quanto mais ela se afasta, mais o primeiro parceiro procura.

Quanto mais ele procura, mais ela se sente pressionada.

Quanto mais pressionada, menos desejo sente.

Quanto menos desejo demonstra, mais rejeitado o outro se sente.

Então ele aumenta as tentativas.

E o ciclo se fortalece.

Chega um momento em que ambos sofrem.

Um pensa:

“Eu preciso implorar para receber carinho.”

O outro pensa:

“Qualquer demonstração de carinho vai virar uma cobrança por sexo.”

Assim, até um abraço pode se tornar ameaçador.

A sexualidade deixa de representar encontro e começa a representar conflito.

Na terapia, precisamos interromper esse ciclo, não simplesmente decidir qual dos dois está certo.


O desejo não nasce bem sob pressão

Quanto maior a cobrança, mais difícil pode ficar desejar.

Isso cria uma situação paradoxal.

O parceiro que deseja mais sexo começa a cobrar porque está sofrendo com a falta dele.

Mas a cobrança aumenta a pressão.

A pressão diminui a espontaneidade.

A diminuição da espontaneidade reduz ainda mais o desejo.

E a redução do desejo aumenta a cobrança.

Por isso, trabalhar sexualidade em terapia de casal exige muito mais do que estabelecer uma “meta de frequência”.

É necessário compreender o significado daquela sexualidade para os dois.


O ressentimento também entra na cama

Não existe uma parede separando o relacionamento cotidiano da vida sexual.

Se durante o dia existe desprezo, crítica constante, sobrecarga, hostilidade ou distanciamento, dificilmente basta apagar a luz à noite e esperar que o desejo apareça.

Da mesma forma, conflitos sexuais prolongados podem contaminar o restante da relação.

A pessoa rejeitada fica ressentida.

A pessoa pressionada fica defensiva.

Uma evita.

A outra cobra.

Uma se fecha.

A outra aumenta a intensidade.

Até que ninguém mais sabe exatamente onde o problema começou.

Era falta de sexo que gerou ressentimento?

Ou era ressentimento que destruiu o desejo?

Muitas vezes, as duas coisas passaram a se alimentar mutuamente.


A traição pode funcionar como um alarme — mas é um alarme extremamente destrutivo

Há casais que passam anos evitando problemas importantes.

Então surge uma infidelidade.

De repente, tudo aquilo que não era conversado passa a ser urgente.

O casal procura ajuda.

Começa a falar sobre sexo.

Sobre solidão.

Sobre ressentimento.

Sobre necessidades.

Sobre rejeições.

Sobre expectativas.

Sobre mágoas antigas.

Sobre o que desapareceu.

É triste pensar que, em alguns relacionamentos, foi necessária uma crise tão dolorosa para que os parceiros finalmente prestassem atenção ao casamento.

Por isso, uma das melhores formas de trabalhar com relacionamentos é não esperar que uma terceira pessoa funcione como sistema de alarme.

O casal pode olhar para os sinais antes.


A traição não deve ser romantizada

Compreender as circunstâncias de uma infidelidade não significa transformá-la em gesto heroico.

Existem mentiras.

Existem consequências.

Existe quebra de confiança.

Existe sofrimento.

Em alguns casos, existe uma devastação emocional importante.

Portanto, não estou defendendo que pessoas insatisfeitas devam procurar alguém fora do casamento.

Muito pelo contrário.

O objetivo dessa reflexão é mostrar por que precisamos tratar os problemas conjugais enquanto ainda pertencem ao casal.

Antes que uma pessoa passe a viver uma vida paralela.

Antes que o ressentimento se torne desprezo.

Antes que a solidão pareça normal.

Antes que a rejeição se transforme em humilhação.

Antes que a indiferença seja confundida com estabilidade.


Também não devemos usar a infidelidade para apagar tudo o que aconteceu antes

Esse é o outro extremo.

Depois da descoberta, quem traiu pode ser colocado automaticamente na posição de único responsável por toda a deterioração do casamento.

Às vezes isso impede que o casal investigue a própria história.

A pessoa traída precisa ter espaço para sua dor.

Mas, se o objetivo for compreender ou reconstruir a relação, chegará um momento em que será necessário olhar para o casamento anterior à traição.

Como vocês estavam vivendo?

Como conversavam?

Como resolviam conflitos?

Havia carinho?

Havia respeito?

Havia intimidade?

Havia sexo satisfatório para ambos?

Existia admiração?

Alguém estava profundamente sozinho?

Alguma necessidade vinha sendo comunicada repetidamente e ignorada?

Havia desprezo?

Havia rejeição?

Havia humilhação?

A infidelidade não deixa de ser responsabilidade de quem a praticou.

Mas o casamento é uma história maior do que o episódio da infidelidade.


Afinal, quem é a vítima do casamento?

Talvez essa seja uma pergunta ainda mais interessante do que simplesmente perguntar quem foi traído.

Em alguns casos, a resposta é clara.

Em outros, os dois passaram anos ferindo um ao outro de maneiras diferentes.

Um criticava.

O outro se afastava.

Um desprezava.

O outro se fechava.

Um cobrava.

O outro evitava.

Um rejeitava.

O outro acumulava ressentimento.

Até que ambos passaram a viver presos em uma dinâmica que nenhum deles sabia interromper.

É por isso que terapia de casal não deveria ser um tribunal.

O objetivo não é decidir quem é “o bom” e quem é “o mau”.

É compreender padrões.

Responsabilidades.

Escolhas.

Feridas.

Necessidades.

Limites.

E, principalmente, verificar se ainda existe disposição para construir algo diferente.


Transformar críticas em pedidos

Quando os ressentimentos se acumulam, as pessoas começam a falar por meio de acusações.

“Você nunca me procura.”

“Você só pensa no trabalho.”

“Você não liga para mim.”

“Você só quer sexo.”

“Você nunca me escuta.”

“Você não faz nada pela nossa relação.”

Por trás dessas críticas geralmente existem necessidades.

“Eu quero me sentir importante para você.”

“Eu sinto falta de proximidade.”

“Eu gostaria de ter mais espaço na sua vida.”

“Eu preciso que meu desejo seja considerado.”

“Eu quero poder demonstrar carinho sem sentir que isso obrigatoriamente precisa terminar em sexo.”

Na terapia, transformar crítica em pedido pode mudar profundamente a qualidade de uma conversa.

Porque ataques costumam produzir defesa.

Pedidos claros aumentam a possibilidade de compreensão.


Vulnerabilidade é diferente de acusação

Existe uma diferença enorme entre dizer:

“Você nunca liga para mim.”

e dizer:

“Eu tenho me sentido muito sozinho dentro da nossa relação.”

Existe diferença entre:

“Você só quer saber de sexo.”

e:

“Quando sinto que qualquer aproximação vai terminar em cobrança sexual, começo a evitar até o carinho.”

Existe diferença entre:

“Você não me deseja.”

e:

“Depois de tantas recusas, comecei a me sentir pouco desejável e isso está mexendo comigo.”

A vulnerabilidade não garante que o problema será resolvido.

Mas permite que o parceiro tenha acesso ao sofrimento que existe por trás da defesa.


A terapia de casal pode ajudar antes que apareça uma terceira pessoa

Muitos casais procuram terapia somente quando a relação já está em crise grave.

Quando alguém pediu separação.

Quando houve uma traição.

Quando praticamente não existe diálogo.

Quando a intimidade desapareceu.

Quando um dos dois já desistiu emocionalmente.

Mas não é necessário esperar chegar a esse ponto.

A terapia pode ajudar o casal a identificar padrões que, se mantidos durante anos, tendem a produzir distanciamento.

Entre eles:

rejeição constante;

críticas;

desprezo;

falta de intimidade;

silêncio;

ressentimentos;

problemas sexuais não discutidos;

sobrecarga;

diferenças importantes de desejo;

dificuldade de fazer pedidos;

solidão dentro da relação.

Quanto antes esses padrões são reconhecidos, maiores são as possibilidades de intervenção.


E quando a traição já aconteceu?

A descoberta de uma traição no casamento não significa automaticamente que a relação terminou.

Também não significa que ela necessariamente deverá continuar.

Cada casal precisa construir sua própria resposta.

Alguns percebem que ainda existe vínculo e desejo de reconstrução.

Outros descobrem que a relação já havia terminado emocionalmente há muito tempo.

Na terapia de casal, uma das primeiras tarefas é criar espaço para compreender o que aconteceu sem apressar decisões.

A pessoa traída precisa poder falar sobre a quebra de confiança.

Quem traiu precisa assumir responsabilidade pelas próprias escolhas.

Ao mesmo tempo, se o casal deseja compreender sua história, será necessário investigar o relacionamento que existia antes da infidelidade.

Não para encontrar uma desculpa.

Mas para evitar que toda a complexidade do casamento seja reduzida a um único acontecimento.


É possível reconstruir um casamento depois de uma traição?

Em alguns casos, sim.

Mas reconstrução não significa voltar ao casamento que existia anteriormente.

Isso é importante.

Se aquele casamento já continha problemas graves, simplesmente tentar “voltar ao normal” pode significar voltar justamente para a dinâmica que antecedeu a crise.

A pergunta mais produtiva pode ser:

Que relacionamento precisará existir daqui para frente para que ambos queiram permanecer nele?

Isso envolve reconstrução da confiança, mas pode envolver também:

mudanças na comunicação;

revisão de acordos;

maior transparência;

reconstrução da intimidade;

tratamento de problemas sexuais;

reorganização da vida familiar;

limites;

responsabilização;

recuperação da admiração;

e criação de novas formas de conexão.


Não espere a crise revelar aquilo que vocês já sabem

Talvez você esteja lendo este texto e pensando:

“Não existe traição no meu casamento.”

Ótimo.

Mas talvez a pergunta mais importante seja outra:

Como está o vínculo entre vocês?

Vocês ainda se enxergam?

Ainda existe curiosidade um pelo outro?

Vocês conseguem conversar sobre assuntos difíceis?

Conseguem falar sobre sexo?

Um consegue dizer ao outro que está se sentindo sozinho?

As necessidades de ambos possuem espaço?

Existe carinho?

Existe respeito?

Existe admiração?

Quando um problema é apresentado repetidamente, ele é levado a sério?

Ou vocês apenas aprenderam a conviver com aquilo?

Porque muitos relacionamentos não terminam de uma vez.

Eles vão perdendo pequenas partes.

Uma conversa que deixa de acontecer.

Um toque que desaparece.

Uma necessidade que deixa de ser expressa.

Uma mágoa que não é resolvida.

Uma rejeição que se repete.

Um pedido que ninguém mais faz.

Até que duas pessoas que construíram uma vida inteira juntas passam a funcionar perfeitamente como família, mas quase não sabem mais como ser casal.


Traição no casamento: talvez a pergunta não seja apenas “quem traiu?”

A grande reflexão que podemos retirar dessa discussão não é que a infidelidade seja irrelevante.

Ela não é.

Também não é que uma pessoa tenha direito de trair porque está frustrada.

Não tem.

A questão é muito mais profunda.

Traição no casamento não deveria ser analisada apenas pelo último acontecimento da história.

Quando existe uma terceira pessoa, precisamos compreender aquela escolha e suas consequências.

Mas, quando o objetivo é compreender o relacionamento, também precisamos olhar para tudo aquilo que aconteceu antes.

Às vezes existiram anos de afastamento.

Anos de rejeição.

Anos de silêncio.

Anos de desprezo.

Anos de solidão.

Anos de pedidos não escutados.

Anos sem intimidade.

A terceira pessoa pode ter entrado no capítulo final de uma crise que começou muito antes.

Isso não absolve ninguém.

Mas nos ajuda a compreender.

E compreender é indispensável quando duas pessoas desejam decidir, com maturidade, se existe algo que ainda pode ser reconstruído.


Terapia de casal para quem está vivendo uma crise no relacionamento

Se você chegou até aqui porque está vivendo uma traição no casamento, uma crise de intimidade, rejeição sexual, distanciamento ou uma sensação de que vocês deixaram de funcionar como casal, talvez seja importante não esperar que o problema se torne ainda maior.

Meu trabalho na terapia de casal não é escolher um culpado.

Também não é convencer duas pessoas a permanecerem juntas a qualquer custo.

O trabalho é compreender o padrão relacional que se estabeleceu, identificar as feridas e necessidades que estão mantendo o conflito e ajudar o casal a desenvolver formas mais saudáveis de comunicação, intimidade e resolução de problemas.

Quando existe infidelidade, trabalhamos também a quebra de confiança, a responsabilização pelas escolhas realizadas e a possibilidade — quando existe desejo de ambos — de reconstrução do vínculo.

Quando a sexualidade se tornou um problema, ela também precisa poder entrar na conversa.

Sexo não deve ser imposto.

Mas sofrimento sexual também não deveria ser ignorado durante anos.

O casal precisa aprender a falar sobre desejo, rejeição, diferenças de libido, prazer, intimidade e expectativas sem transformar essas conversas em cobrança, humilhação ou silêncio.

Sou a Psicóloga Nivia Serra – CRP 05/50281, com atuação em terapia de casal, relacionamentos e sexualidade.

Realizo atendimento presencial no Recreio dos Bandeirantes, Rio de Janeiro – RJ, e atendimento psicológico online para brasileiros que vivem em diferentes lugares do Brasil e do mundo.

Se o seu casamento chegou ao ponto em que vocês já não sabem mais conversar sem brigar — ou, talvez ainda mais preocupante, chegaram ao ponto em que já nem tentam conversar — a terapia pode ser um espaço para compreender o que aconteceu antes de tomar decisões definitivas.

Porque nem sempre a primeira pergunta precisa ser:

“Quem traiu?”

Talvez seja necessário perguntar:

“Em que momento nós começamos a perder um ao outro?”

E, depois:

“Ainda existe disposição dos dois para construir algo diferente?”

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