Gaslighting no Relacionamento: Por Que é Tão Difícil Sair de Quem Fez Você Acreditar que Era Especial
- niviaserrapsi
- 17 de jul.
- 10 min de leitura
Gaslighting no Relacionamento: O ciclo de sedução, desvalorização e falsas promessas que prende tantas mulheres em relacionamentos emocionalmente destrutivos

Ele(a) não começou machucando você.
Muito pelo contrário.
Ele(a) fez você acreditar que finalmente havia encontrado alguém diferente.
As mensagens eram constantes.
Os elogios pareciam sinceros.
Os planos para o futuro surgiram cedo.
Você se sentia escolhida.
Especial.
Amada.
Então, aos poucos, tudo mudou.
Mas você continuou tentando recuperar aquela pessoa maravilhosa do início.
O problema é que essa pessoa talvez nunca tenha existido.
Se existe algo que torna o gaslighting no relacionamento tão devastador, é que ele raramente começa com críticas, desprezo ou controle.
Ele começa exatamente da maneira oposta.
Com atenção.
Com interesse.
Com mensagens constantes.
Com alguém que parece enxergar você como ninguém jamais enxergou.
Essa é uma das principais ideias apresentadas por Stephanie Moulton Sarkis no capítulo dedicado aos relacionamentos íntimos. Segundo a autora, pessoas que praticam gaslighting costumam ser extremamente sedutoras no início da relação. Elas fazem você acreditar que encontrou exatamente aquilo que sempre procurou.
É comum que muitas mulheres descrevam esse período como um verdadeiro conto de fadas.
"Finalmente encontrei alguém que me entende."
"Nunca fui tratada dessa forma."
"Ele parece diferente de todos os outros."
Nesse momento, tudo parece acontecer muito rápido.
Os planos surgem cedo.
As demonstrações de carinho parecem espontâneas.
O interesse parece intenso.
Você sente que finalmente encontrou alguém disposto a construir uma vida ao seu lado.
É justamente por isso que o relacionamento cria uma ligação emocional tão forte.
O problema é que essa fase inicial não representa, necessariamente, quem aquela pessoa realmente é.
Como explica a autora, o charme inicial faz parte da dinâmica do relacionamento. Quando o comportamento começa a mudar, muitas mulheres acreditam que precisam descobrir o que fizeram de errado para recuperar aquele parceiro maravilhoso do começo.
Mas existe uma pergunta difícil — e extremamente libertadora — que precisa ser feita:
E se aquele homem nunca tivesse existido da forma como você imaginou?
Essa é uma das reflexões mais importantes de todo o capítulo.
Não se trata de recuperar o homem do início.
Porque, muitas vezes, aquele comportamento fazia parte da estratégia de conquista.
O que é gaslighting no relacionamento?
O gaslighting no relacionamento é uma forma de manipulação psicológica na qual uma pessoa passa, de maneira gradual e repetitiva, a fazer a outra duvidar da própria percepção da realidade.
Ao contrário do que muitas pessoas imaginam, isso não acontece apenas quando alguém mente descaradamente.
A manipulação costuma ser muito mais sutil.
Ela aparece em pequenas situações do cotidiano.
Você percebe algo.
Questiona.
E recebe respostas como:
"Você entendeu tudo errado."
"Você está exagerando."
"Isso nunca aconteceu."
"Você está imaginando coisas."
"Você é muito sensível."
"Você cria problemas onde eles não existem."
Com o tempo, essas mensagens repetidas produzem um efeito profundo.
A vítima deixa de confiar nos próprios sentimentos.
Depois passa a duvidar da própria memória.
Mais tarde, começa a pedir desculpas por situações que nem sequer provocou.
E, por fim, perde a confiança na própria capacidade de interpretar a realidade.
É justamente esse processo que torna o gaslighting no relacionamento tão perigoso.
Ele não destrói apenas a relação.
Ele corrói a identidade da pessoa.
Por que o começo parece perfeito?
Uma das partes mais interessantes do capítulo é quando Stephanie Sarkis explica que o início costuma ser intenso justamente porque a pessoa manipuladora investe muito na conquista.
Hoje esse comportamento também é conhecido como love bombing, ou "bombardeio de amor".
É aquele período em que você recebe uma quantidade enorme de atenção.
Mensagens.
Presentes.
Declarações.
Planos para o futuro.
Você passa a acreditar que finalmente encontrou alguém que faz questão da sua presença.
O relacionamento parece acontecer naturalmente.
Tudo flui.
Tudo parece intenso.
Mas existe uma diferença importante entre uma paixão saudável e o bombardeio de amor.
Na paixão saudável, o relacionamento cresce aos poucos.
Existe curiosidade.
Respeito.
Espaço para conhecer quem o outro realmente é.
No bombardeio de amor, a intensidade chega antes da intimidade.
Antes mesmo que exista tempo suficiente para conhecer profundamente quem está ao seu lado, já existem planos para morar juntos, casar, viajar, construir uma família ou fazer promessas que parecem grandiosas.
No momento, isso pode parecer romântico.
Depois, muitas mulheres percebem que essa rapidez dificultou enxergar sinais importantes que já estavam presentes desde o início.
O problema não é se apaixonar rapidamente.
O problema é acreditar que intensidade é a mesma coisa que segurança emocional.
E não é.
Por que ele muda depois que conquista você?
Uma das maiores dúvidas de quem vive um gaslighting no relacionamento é entender por que alguém que parecia tão amoroso passa a agir de maneira completamente diferente.
A maioria das mulheres acredita que houve alguma mudança.
Pensam que o parceiro está passando por um momento difícil.
Que o estresse do trabalho o deixou diferente.
Que os problemas financeiros afetaram seu humor.
Ou, pior ainda, acreditam que fizeram alguma coisa que provocou essa transformação.
O capítulo mostra uma interpretação diferente.
Segundo Stephanie Sarkis, muitas vezes não é a pessoa que mudou.
O que mudou foi a necessidade dela.
Durante a conquista, era importante conquistar sua confiança.
Depois que o vínculo emocional foi estabelecido, ela já não precisava investir na mesma forma de tratamento.
Essa mudança costuma acontecer de maneira gradual.
Primeiro, as mensagens diminuem.
Os elogios ficam mais raros.
Os encontros deixam de ser prioridade.
As demonstrações de carinho passam a depender exclusivamente do humor dele.
Você percebe que algo está diferente, mas ainda acredita que tudo pode voltar a ser como antes.
É exatamente aí que muitas mulheres permanecem presas durante anos.
Elas não estão tentando salvar o relacionamento.
Estão tentando recuperar aquele homem por quem se apaixonaram.
Mas o próprio livro faz uma observação extremamente importante: aquele comportamento inicial fazia parte da conquista. Não existe um caminho para recuperar uma pessoa que talvez nunca tenha existido daquela forma.
Essa percepção costuma ser dolorosa, mas também pode representar o início da libertação.
"A culpa é minha?"
Outro ponto abordado no capítulo é que praticamente todas as vítimas começam a acreditar que são responsáveis pela mudança do parceiro.
Essa culpa aparece de diversas maneiras.
"Talvez eu esteja cobrando demais."
"Talvez eu tenha ficado menos interessante."
"Se eu fosse mais calma, ele não reagiria assim."
"Se eu tivesse mais paciência, ele voltaria a ser como antes."
Esses pensamentos não surgem por acaso.
Eles são construídos lentamente.
Sempre que a mulher tenta conversar sobre algo que a machucou, a resposta costuma inverter completamente a situação.
Em vez de reconhecer o comportamento, o parceiro questiona a reação dela.
Assim, o foco deixa de ser aquilo que aconteceu e passa a ser a forma como ela reagiu.
Pouco a pouco, ela aprende a pedir desculpas antes mesmo de saber se realmente fez algo errado.
Esse é um dos efeitos mais destrutivos do gaslighting no relacionamento: a culpa deixa de acompanhar os fatos e passa a acompanhar a própria existência.
A mulher sente que está sempre errando.
Sempre exagerando.
Sempre causando problemas.
Mesmo quando apenas tenta expressar seus sentimentos.
Quando você começa a desconfiar de si mesma
Stephanie Sarkis descreve algo que muitas pacientes relatam durante a terapia: chega um momento em que a mulher deixa de confiar na própria percepção.
Ela sabe que viu determinada situação.
Ela lembra do que ouviu.
Ela percebeu determinada mudança.
Mas, depois de tantas negativas, começa a pensar:
"Será que eu entendi errado?"
"Talvez eu esteja confundindo as coisas."
"Será que estou ficando insegura demais?"
Essa dúvida constante é um dos sinais mais característicos do gaslighting.
A vítima não consegue mais usar seus próprios sentimentos como referência.
Ela passa a depender da interpretação do parceiro para decidir o que realmente aconteceu.
Isso afeta profundamente sua autoestima.
Porque confiança não significa apenas acreditar em si mesma.
Significa confiar na própria percepção da realidade.
Quando essa confiança desaparece, decisões simples tornam-se extremamente difíceis.
O isolamento acontece aos poucos
Outro aspecto importante destacado pela autora é que pessoas manipuladoras costumam enfraquecer, pouco a pouco, os vínculos que poderiam fortalecer a vítima.
Nem sempre isso acontece de forma explícita.
Às vezes basta um comentário.
"Sua amiga não gosta de mim."
"Sua mãe interfere demais."
"Seu irmão não entende nosso relacionamento."
"Essas pessoas têm inveja da gente."
No início parecem observações isoladas.
Depois passam a se repetir.
Quando a mulher percebe, começa a evitar determinados encontros para impedir discussões.
Liga menos para os amigos.
Visita menos a família.
Conta menos o que está vivendo.
Sem perceber, perde justamente as pessoas que poderiam ajudá-la a enxergar a situação de maneira mais clara.
O isolamento não acontece porque ela deixa de amar sua família ou seus amigos.
Ele acontece porque manter esses vínculos começa a gerar conflitos constantes dentro do relacionamento.
E, como ela já está tentando evitar novos conflitos, acaba escolhendo o silêncio.
Quando a realidade começa a desaparecer
Uma consequência muito comum do gaslighting no relacionamento é que a mulher deixa de reconhecer quem era antes daquela relação.
Ela costumava ser segura.
Tomava decisões.
Expressava opiniões.
Ria com facilidade.
Tinha projetos.
Encontrava amigos.
Confiava na própria capacidade.
Depois de meses — ou anos — vivendo sob críticas, dúvidas e culpabilizações, começa a perceber que aquela mulher parece ter desaparecido.
O capítulo mostra que essa perda da identidade não acontece de um dia para o outro.
Ela ocorre lentamente.
Quase de forma imperceptível.
É como se, para manter o relacionamento funcionando, fosse necessário abrir mão de pequenas partes de si mesma.
Primeiro deixa de falar o que pensa.
Depois evita determinados assuntos.
Mais tarde abandona sonhos.
Passa a mudar seu comportamento para evitar novas críticas.
Até que chega um momento em que já não sabe responder perguntas simples, como:
"O que eu realmente quero?"
"No que eu acredito?"
"O que é importante para mim?"
Essa talvez seja uma das maiores perdas provocadas pelo gaslighting: a perda da própria identidade.
Por que tantas mulheres voltam para o relacionamento?
Quem nunca viveu essa realidade costuma fazer uma pergunta aparentemente simples:
"Se ela está sofrendo, por que simplesmente não vai embora?"
A resposta é muito mais complexa do que parece.
No gaslighting no relacionamento, a mulher raramente permanece porque gosta de sofrer.
Ela permanece porque acredita que ainda existe uma possibilidade de recuperar a pessoa por quem se apaixonou.
Esse talvez seja um dos maiores equívocos provocados pela manipulação.
A esperança deixa de estar baseada na realidade atual e passa a estar presa às lembranças do início da relação.
Quando o parceiro reaparece demonstrando carinho, faz promessas ou pede uma nova chance, aquela fase inicial parece voltar por alguns dias.
É suficiente para reacender a esperança.
Stephanie Sarkis explica que esse comportamento faz parte de um ciclo muito conhecido nos relacionamentos marcados pelo gaslighting.
Quando percebe que está perdendo o controle sobre a relação, o parceiro volta a demonstrar atenção.
Pede desculpas.
Promete mudanças.
Diz que agora será diferente.
Planeja viagens.
Faz declarações.
Volta a agir exatamente como no começo.
Durante alguns dias ou semanas, a mulher sente que finalmente conseguiu recuperar o relacionamento que tanto desejava.
Mas, na maioria das vezes, esse comportamento não se sustenta.
Pouco tempo depois, as críticas, o distanciamento, as mentiras e a desvalorização reaparecem.
O ciclo recomeça.
E, a cada repetição, a autoestima fica ainda mais fragilizada.
Como saber se houve uma mudança verdadeira?
É natural querer acreditar que alguém possa mudar.
As pessoas podem, sim, transformar comportamentos quando reconhecem seus erros, assumem responsabilidade por eles e se comprometem com mudanças consistentes ao longo do tempo.
Mas existe uma diferença importante entre uma mudança real e uma promessa feita apenas para impedir o fim da relação.
Mudanças verdadeiras não aparecem apenas nas palavras.
Elas se tornam visíveis nas atitudes.
São consistentes.
Mantêm-se mesmo quando surgem conflitos.
Não dependem do medo de perder o relacionamento.
Quando as promessas surgem apenas nos momentos em que a outra pessoa decide se afastar, vale a pena observar com cuidado se existe uma transformação genuína ou apenas uma tentativa de manter a relação como ela sempre foi.
O que um relacionamento saudável realmente oferece?
Nas últimas páginas do capítulo, Stephanie Sarkis propõe uma reflexão simples, mas extremamente poderosa.
Ela convida a leitora a pensar nas necessidades que deveriam estar presentes em qualquer relacionamento saudável.
Você consegue ser ouvida?
Pode expressar sua opinião sem medo de ser ridicularizada?
Sente-se segura ao lado do seu parceiro?
Recebe carinho e demonstrações de afeto?
É tratada com respeito, mesmo quando existem diferenças de opinião?
Essas perguntas parecem simples.
Mas muitas mulheres percebem que há muito tempo deixaram de fazer essa avaliação.
Passaram a concentrar toda a energia tentando evitar conflitos ou agradar o parceiro.
Enquanto isso, suas próprias necessidades foram ficando em segundo plano.
Um relacionamento saudável não elimina todos os problemas.
Nenhum casal está livre de conflitos.
A diferença é que, em relações saudáveis, os conflitos não fazem você perder a confiança em si mesma.
Eles não exigem que você abandone seus valores para manter a paz.
Eles não fazem você acreditar que precisa deixar de ser quem é para ser amada.
Como a Terapia Cognitivo-Comportamental pode ajudar?
Quando uma mulher vive durante muito tempo em uma relação marcada pelo gaslighting, não é apenas o relacionamento que precisa ser reconstruído.
É a forma como ela passou a enxergar a si mesma.
Na Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), um dos primeiros objetivos é ajudá-la a recuperar aquilo que foi sendo perdido ao longo do tempo: a confiança na própria percepção.
O trabalho terapêutico envolve identificar pensamentos que foram fortalecidos pela manipulação, como:
"Talvez eu esteja exagerando."
"O problema sou eu."
"Nunca vou encontrar alguém melhor."
"Se eu tentar mais um pouco, tudo pode voltar a ser como antes."
Esses pensamentos são compreendidos, questionados e substituídos por interpretações mais realistas, sempre respeitando a história, os valores e o ritmo de cada pessoa.
Ao mesmo tempo, a terapia ajuda a reconstruir a autoestima, desenvolver assertividade, fortalecer limites saudáveis e recuperar a autonomia para tomar decisões baseadas na realidade — e não apenas na esperança de que o outro mude.
O objetivo da terapia não é dizer à mulher se ela deve permanecer ou terminar o relacionamento.
É ajudá-la a enxergar a situação com mais clareza, compreender suas necessidades emocionais e fazer escolhas coerentes com aquilo que deseja para sua vida.
O maior dano provocado pelo gaslighting no relacionamento não é apenas a dor das críticas, das mentiras ou das promessas não cumpridas.
É fazer com que uma mulher deixe de confiar em si mesma.
Ela começa o relacionamento acreditando que encontrou alguém extraordinário.
Com o tempo, passa a acreditar que precisa mudar para voltar a ser amada.
E, quando percebe, já não sabe mais quais são seus próprios valores, desejos e necessidades.
Talvez a pergunta mais importante não seja:
"Será que ele ainda pode voltar a ser quem era?"
Talvez a pergunta seja:
"Em que momento eu deixei de ser quem eu era para manter este relacionamento?"
Essa mudança de perspectiva costuma marcar o início de uma transformação profunda.
Como psicóloga especializada em relacionamentos, terapia de casal e Terapia Cognitivo-Comportamental, acompanho mulheres que chegam ao consultório sentindo-se confusas, culpadas e inseguras sobre suas próprias percepções. Ao longo do processo terapêutico, elas aprendem a reconhecer padrões, recuperar a autoestima e reconstruir a confiança em si mesmas para tomar decisões com mais clareza e segurança.
Sou Nivia Serra – Psicóloga (CRP 05/50281). Realizo atendimento online para brasileiros em qualquer lugar do mundo e presencialmente no Recreio dos Bandeirantes, Rio de Janeiro.
Se você se identificou com este artigo, saiba que não precisa enfrentar essa situação sozinha. A terapia pode ser um espaço seguro para compreender o que está acontecendo, fortalecer sua autonomia emocional e construir relacionamentos baseados em respeito, confiança e reciprocidade.
Clique no botão do WhatsApp e agende sua consulta. O primeiro passo para recuperar sua voz pode começar hoje.
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